08/03/11

Crônica para uma quarta de cinzas

Carnaval de salão - foto: patosonline

Palavras que denunciam

As escolas já passaram. Passistas, comissões de frente, alas das baianas e destaques são coisas do passado. Na avenida vazia alguns garis recolhem o que sobrou. Quem brincou, brincou; quem sambou, sambou. Agora é só esperar aquela inconfundível voz, em rede nacional, anunciando a “nota 10!”. Vibro com a nota 10, mesmo sem saber para que quesito, para que escola ela foi atribuída. Nesta busca pela perfeição, nota 9,5 é merreca, é fracasso, é derrota. O que vale mesmo é a vibração do “10!”.
Houve um tempo em que os carnavais eram românticos. Os salões dos clubes recebiam  os foliões fantasiados. Pierrôs e colombinas, piratas da perna de pau, índios que queriam apito, jardineiras, dançavam ao som de uma banda que entoava a noite toda marchas-rancho. Ninguém lutava por uma “nota 10!”. A maior peleia era encantar alguém para formar um par. Nem que tudo acabasse na quarta-feira. Tudo isso ficou no passado, um passado já distante, que sobrevive apenas na memória de alguns e nos velhos documentários e filmes da velha Atlântida que a TVE insiste em passar.
As marchinhas de Carnaval ficam na lembrança. Na pista, o axé da Ivete é o que mais contagia. Quente mesmo me diz alguém é o carnaval eletrônico.  “Oh Abre Alas que eu quero passar” agora é tocado pelo David Guetta, Bob Sinclar e pelo midas Wil.I.Am e sua turma do Black Eyed Peas. Pierrô no meio desta galera virou nome feio. Marchinha, então é xingamento. “Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil”, sinônimo de pista cheia no passado, virou hora de descanso. Sinal dos tempos.
Morrem alguns costumes e nascem outros. Com isso as palavras vão desaparecendo, lentamente, silenciosamente. As que sobrevivem na nossa memória acabam por fazer sentido somente para  poucos.  Dia desses lembrei-me de uma palavra que não ouvia há décadas, desde o tempo das marchinhas. Não riam, por favor, mas houve um tempo em que se usava o termo “acachapado” para designar alguém que não estava muito bem de saúde. Na verdade o significa real, que consta no dicionário, é encolhido, agachado, mas por aqui, na várzea, a palavra ganhava um significado diferente. Quando meu pai, minha mãe ou outro familiar falava que alguém estava acachapado não era boa coisa. 
As palavras vão formando alas. Vão se agrupando conforme o enredo, de acordo com a harmonia (ou desarmonia). Desfilam pela avenida. Logo ali se dispersam. Algumas voltam, resistem ao tempo. Outras desistem, sucumbem. Sacanas que são, não perdem tempo e vão denunciando a idade dos falantes, seus hábitos, seus costumes e sua formação cultural.
Outro termo que caiu em desuso é compostura. Abra a boca perto de um jovem e diga que lhe falta compostura.  Não estranhe se ele agradecer, confundindo com algum elogio: “brigadu tio”. Compostura é o que se exigia no passado. Certo recato, certo pudor. Hoje se exige brilho e esperteza desde o berço.
Contou-me a doutora Conceição que dia desses, numa destas novelas que não assisto, neta e avô protagonizaram a maior discussão porque ela espontaneamente disse “que saco!”. O avô, exigindo certa compostura da jovem, lembrou que o termo não é adequado e que deveria ser substituído por uma expressão mais amena. E sugeriu que ela falasse “putz!”. Risos, é claro! Afinal, “que saco” deixou de ser palavrão no final dos anos 70 e “putz!”, uma redução de “putzgrila”, usada pelos hippies para expressar espanto, susto e admiração.
Isso não é nada, conheço gente que até hoje chama Omo de Rinso, que saiu do mercado em 70. No súper procura nas gôndolas o kit limpeza com desodorante, xampu e o indispensável creme rinse. Desculpem os mais jovens, creme rinse é o mesmo que condicionador. Os menos afortunados tinham a opção de comprar xampu e creme rinse em dose única. Era uma embalagem plástica, um travesseirinho, que cabia na palma da mão. O grande desafio era abrir o produto. Como nem sempre havia uma tesoura por perto, vez por outra era com os dentes que se abria um pontinho por onde escorria o escasso líquido, deixando um forte resíduo na boca.
O tempo passa e leva de roldão costumes, palavras e memórias. O tempo é inexorável e não perdoa nem pierrôs, nem colombinas, nem jardineiras, nem passistas e nem destaques.  

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