24/05/12

O valor do silêncio

Nosso tempo é do barulho. Se ainda não notou vá até a frente da sua casa ou na sacada de seu apartamento, feche os olhos por dois ou três minutos e contem a infinidade de sons advindos das mais diversas fontes. Os automóveis contribuem para boa parte dos ruídos, a betoneira na construção próxima também. A algazarra das crianças no recreio da escola é hors concours. É um verdadeiro mistério da criação. Como seres tão pequenos conseguem emitir sons tão elevados?
O silêncio é coisa rara. Nestes tempos de frenesi, de correria, de incansável busca pela instantaneidade, a falta de barulho é mesmo vista como negação da vida. O silêncio é o fim. A vida é barulhenta. Esta premissa, no entanto, carece de verdade. É falso crer que no silêncio há inatividade. Pelo contrário, há no silêncio infinitas possibilidades de crescimento para os seres que pensam.
O silêncio é importante componente cultural. Nas sociedades iniciáticas o silêncio é considerado indispensável para que o conhecimento permaneça entre aqueles que foram admitidos nas suas fileiras. É uma herança do costume empregado pelos grandes magos e sacerdotes egípcios que exigiam o silêncio absoluto para que os aprendizes descobrissem a meditação. Buda também valorizava o silêncio como forma de contemplação.
Os essênios, por outro lado, eram mais específicos em sua simbologia: tinham como principais símbolos um triângulo contendo uma orelha e outro contendo um olho, significando que a tudo viam e ouviam, mas não podiam falar, por não terem boca. Era uma espécie de antídoto contra a fofoca. Porém, o gosto dos essênios pela discrição não prosperou como se constata hoje quando o que mais se vê são pessoas com inúmeras bocas e sem ouvidos.
Entre os pensadores o silêncio tem valor inestimável. É através dele que o homem chega ao autoconhecimento, que é determinante no progresso do ser. Para Lao-Tsé o sábio é o que cala e não o que apregoa suas qualidades em bom som: “O sábio não se exibe, por isso brilha. Ele não se faz notar, e por isso é notado. Ele não se elogia, e por isso tem mérito.
E, porque não está competindo, ninguém no mundo pode competir com ele”. Ou seja, na palavra do mestre, sabedoria não rima com fanfarra.
Significativa parte dos desentendimentos nos relacionamentos humanos seria evitada se o silêncio fosse mais apreciado. Calar, não levar adiante o que se ouve, não espalhar impressões sobre os semelhantes, silenciar. Calar é reverenciar o silêncio. É investir na sabedoria. Não é fugir. É contribuir para um mundo mais silencioso, mas não menos vibrante. O universo se expande lentamente, sem alvoroço, sem alarido. Também os humanos podem crescer com um pouco de silêncio.

Nos links a seguir outras divagações sobre o silêncio:
Filosofia
A Razão
A sabedoria do silêncio

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