16/10/13

Uma página em branco

Uma página em branco é um desafio. É um desafio para o desenhista que olha aquela imensidão e lança traços imaginários, construindo figuras aos poucos. Sombreando aqui e iluminando ali, o branco vai sumindo. Paisagens, rostos, objetos vão povoando aquele espaço antes tão límpido, tão estéril. Porém, neste processo de criação, nem sempre as porções de tinta lançadas no papel satisfazem os olhos exigentes do autor. Algumas folhas, reprovadas pelo controle de qualidade do ilustrador, morrem amassadas ao lado da mesa.
Uma folha em branco é um desafio para o acadêmico que encara, enfim, o seu trabalho de conclusão. Às vezes, aquela estrutura pálida e frágil agride o olhar cansado do estudante. O período é de nervosismo. Alguns colegas, no entanto, mais falam é da formatura, da festa, do formato do convite e do buffet. Outros brigam obstinadamente para definir quem será o orador, o juramentista, o paraninfo e o professor homenageado. Uns brigam por tudo. Encrencam com o formato das fotos, com a contratação da empresa que fará a filmagem e a decoração. Porém, é certo que nas madrugadas uns que outros despertam depois de um torturante pesadelo. Acordam apavorados depois de perderem a voz diante da cruel banca examinadora.
Uma folha em branco nunca foi um desafio para o Braguinha.  Carlos Alberto Ferreira Braga, compositor de marchinhas de carnaval há 70 anos, não precisava nem de uma folha A4. Sentado à mesa de um bar, acompanhado de nada menos do que Noel Rosa, Braguinha, que assumiu o pseudônimo de João de Barro para não desagradar seu pai - para quem sambista era vagabundo e bêbado-, não precisava de muita coisa para lançar ao papel suas brilhantes canções. Um singelo guardanapo. Destes que se usa para limpar a boca e depois se esquece em cima da mesa para que o garçom dê o destino final. Ali, naquele reduzido espaço, o sambista jogava letras que conquistaram os foliões naqueles carnavais em que cantavam as peripécias e os sofrimentos de arlequins, de colombinas, de piratas e das pastorinhas que “pra consolo da lua vão cantando na rua lindos versos de amor”.
Uma folha em branco virtual me desafia semanalmente. Na fria tela do computador parece me encarar solenemente: “vamos lá, comece a jogar algumas letras para vermos no que vai dar”.  Vez por outra imito o Braguinha. Em locais insuspeitos, rabisco duas ou três frases em pedaços de papel. Coisas que surgem do nada. Estes recortes são guardados na minha pasta. Muitas destas orações se perdem para sempre. São obras que nunca serão concluídas. Algumas raras aparecem por aqui no meio dos meus textos mais ou menos inspirados. 
E as folhas em branco vão, aos poucos, sendo tomadas de sinais. Ao final deixam a impressão de que nunca foram totalmente vazias.

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