01/04/15

As estradas

Nos tempos antigos, os locais mais distantes careciam de meios de acesso. As comunicações, por isso mesmo, eram difíceis. O progresso vinha a pé. As notícias envelheciam nas estradas empoeiradas. As visitações eram precárias. O mundo era lento. E o tempo, por isso tudo, transcorria sem tanta pressa.
Aqui, neste cantinho do mundo, que hoje chamamos de Rio Grande, charruas, tapuias, guaranis, kaingang e carijós amassavam com seus pés o mato nascente formando trilhas pelas quais se deslocavam em busca de caça e do sol. Não havia pressa nem pecado no Sul do Equador. Os homens de então viviam por aqui envolvidos nas suas atividades mais básicas. A ordem era viver sem pressa. Não suspeitavam que, na distante Europa, os romanos pavimentavam suas estradas com pedras regulares para que seus cavalos corressem arrastando as bigas por léguas e léguas. Lá havia pressa. O mundo por aqui era mais lento, mais primitivo.
Eis que um dia estes mundos se encontraram. O primitivo foi passado para trás. A pressa chegou por aqui. E os velhos habitantes deste pedaço de chão foram engolidos. Sumiram como somem os mendigos das ruas em tempos de copa do mundo e de jogos olímpicos. E os antigos caminhos foram se tornando estradas. E o chá batido se tornou negro. E a pressa tomou conta de tudo e de todos.
Hoje até mesmo as estradas já foram superadas. Foram substituídas até na linguagem. São vias de acesso. E nem pedra e nem asfalto são tão necessários para que o mundo se ligue. Os microssistemas cabem na palma da mão. Unidos uns aos outros formam uma grande rede que leva a informação de um canto a outro do mundo num tempo menor do que um “ai”.
E todos estão interligados. A pequena aldeia no interior da Amazônia, a metrópole europeia, o subúrbio carioca ou o recanto paradisíaco do Caribe. Não há mais cantões isentos da pressa.
Vez por outra aparece numa revista ou num site alguma praia deserta, um canto inexplorado. Basta isso para que os apressados corram e garantam uma passagem para o paraíso prometido. E logo o paraíso deixa de existir. Eis que miram na preguiça e no ócio, mas têm pressa. E no paraíso a pressa não entra.

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