14/04/15

O Mar de Galeano

Eduardo Galeano partiu nesta semana. O escritor uruguaio fará falta por aqui. Seu texto preciso, enxuto e certeiro, suas histórias de gente simples em momentos singelos e de rara beleza farão muita falta. Sua visão de mundo, tão particular, tão poética, capaz de captar o belo, a tristeza, a melancolia e a alegria em cenas triviais, por certo não será esquecida tão facilmente.
Lendo Galeano vez por outra me questiono: afinal, como pode enxergar o que enxerga de modo tão diferente? Como meus olhos não conseguem captar o que ele capta? Claro, cada um de nós vê o mundo não somente com os olhos. As imagens vão se misturando com os cheiros, sabores, sensações, sentimentos e instintos que são nossos, que foram granjeados ao longo de nossa caminhada. Toda esta mistura vai agindo de modo silencioso. E, a partir disso, vamos montando nosso mundinho. Território próprio e intransferível.
Quantos de nós temos predileção pelo mar? Imensidão de água límpida, embalada por leve brisa e ondas que vão e voltam num ritmo lento, permanente, incansável e imutável. Claro, podemos incrementar a paisagem. Se gostamos de movimento, podemos incluir aí na cena dezenas de jovens, moços e moças exibindo seus corpos, sarados ou não, suas tatuagens tribais em braços bem torneados, em pernas longilíneas, nas costas ou no peito. Pensando bem, na cena ainda cabe um verdadeiro mar de guarda sóis com propagandas de bancos ou de operadoras de telefonia celular. Vendedores de sorvetes, com suas inafastáveis buzinas que chamam os moleques, sempre atentos a achacar os pais por mais um picolé de uva. E os rapazes que vendem queijo coalho, com aquele cheiro de orégano queimado, também não podem falar.
Evidentemente que mineiros e capixabas também têm o direito de transitar por ali com seus carrinhos improvisados levando toneladas de vestidinhos, blusinhas e saídas de banho tão apreciados pelas meninas, jovens e não tão jovens assim. E as redes, as mantas e as toalhas também estão nos ombros fortes dos suados vendedores.
Eduardo Galeano, por sua vez, vê beleza na imensidão do mar. E, em O Livro dos Abraços, nos faz acompanhar Diego, um menino que é apresentado à imensidão pelo pai. Simples, singelo, direto e belo.

“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele,o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando om enino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: -Me ajuda a olhar!”.

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