08/04/15

O Sonhador

Se tem algo que Leonel faz, sem medo, sem dó e com frequência, é sonhar. E, vez por outra, aparece alguém que o acusa de sonhador. Ele não retruca e nem protagoniza grandes defesas. Cala. E sonha novamente.
Porém, apesar da sentença que repetidas vezes se impõe sobre sua cabeça, acredita firmemente que o que conta, no momento, é a imagem que se tem do sonho. Muito frequentemente se vê divagando que se encontrasse pela frente cinquenta arco-íris cinquenta vezes lembraria que existe um pote de ouro na sua base. Não adiantaria teoria científica nem longas pesquisas no Google. Instintivamente pensaria no pote de ouro. Pensaria no sonho, na magia, na lenda. Acreditaria sem pensar. Se racionalizasse, claro, o sonho deixaria de acontecer.
Leonel, que não é trouxa nem nada, bem aprendeu que o prisma de luz que resplandece no horizonte é uma mera projeção. Que é apenas uma ilusão de ótica e que o tal do arco existe tão somente para ser visto. No entanto, no exato momento em que ele aparece à frente dos seus olhos, a imagem do pote de ouro se faz presente. Isto, para ele, é inevitável como a morte é para a vida.
E, mesmo pego na “mentira” não se envergonha disso. “Que seja uma doce ilusão, que seja uma fantasia, que seja uma miragem”, ensaiou certa vez. Melhor viver com ela do que caminhar a esmo descrendo do componente mágico que o universo apresenta diariamente diante de nossos olhos, completou o discurso.
Ele mesmo, Leonel, vez por outra enfrenta uma verdadeira batalha. Despenca, enfrentando dias de calor insuportável, um trânsito caótico, um acúmulo de pessoas deprimente. Paga seu ingresso, muito caro por sinal. Entra em uma sala escura e fria. Os ouvidos acompanham dentes que trituram pipocas e bocas que sugam a última gota do grande copo de Coca-Cola. Assistidos os comerciais do Bibs e da seguradora e uma série infindável de propagandas de filmes que estão sendo lançados.
Sentado diante de uma tela branca enorme, vai entrando dentro do filme. E o coração de vez em quando dispara no exato momento em que a música de fundo se torna mais forte, marcando que o herói enfrenta o perigo. E sente emoção quando o jovem apaixonado está com o coração partido. E raiva diante do vilão. E mesmo o calor da bomba explodindo na guerra e destroçando corpos. Uma verdadeira profusão de sentimentos diante de uma mera projeção. E durante a história não há como enveredar para o lado da farsa. A tela deixa de existir. O que há é um fato. O fato que se apresenta em sua frente. Ali está uma verdade posta. Os personagens, que sofrem, lutam, morrem, se apaixonam, se separam são meras projeções jogadas numa tela. Mas não parecer ser somente isso.
E, ao terminar o filme, notam-se olhos marejados, rostos felizes ou tristes. Gente satisfeita ou não. Mas, nunca indiferente. E ninguém admite que foi ludibriado. Que tudo aquilo que foi projetado na tela era uma falsidade. Que a história era apenas um engodo, algo irreal, criado para encher os bolsos dos produtores, dos executivos e dos donos da sala de projeção. Saem dali pessoas crentes de que aquilo é algo real. E ninguém, no calor da hora, lembra que tudo não passou de um facho luminoso que foi projetado por uma fria máquina.
O arco-íris é um holograma natural. Aos olhos de Leonel, o sonhador, bem que pode esconder em sua base um pote de ouro. No seu devaneio instantâneo, acredita que este pote merece ser procurado.

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