25/11/15

Programa de tevê

Minha mãe não era adepta de televisão. Além do minguado orçamento doméstico que não permitia nenhum tipo de luxo, a bem da verdade,  às vezes, não era suficiente  nem mesmo para aquisição de coisas essenciais, ainda havia sua convicção religiosa. Sua religião, como muitas outras naqueles tempos, entendia que aquela janela proporcionava uma rápida viagem ao inferno. Tudo o que se passava naquela tela brilhante tinha o poder de cooptar a alma do vivente e levá-lo até os confins dominados pelo capeta e seus capangas. Jamais gostei da imagem do inferno. Mas, sempre senti uma forte atração pela programação televisiva. Isso que a programação naqueles tempos era coisa de criança.  O gato Tom correndo atrás de Jerry para transformá-lo em almoço.  O Coiote com mil planos para explodir, prensar, esmagar o Papa-Léguas (Bip-Bip). Tarzan enfrentando jacarés de cinco metros com uma faca e muita ginga.


 E os rebolados das Chacretes, sempre cheias de charme e sensualidade, que hoje não seriam levados a sério nem pelas meninas da creche, mais afeitas aos trejeitos da Anitta e outras popozudas mais cotadas.
A Tia Maria tinha uma tevê. Uma senhora tevê. Não lembro se era Telefunken, Admiral, National ou Colorado RQ. Era uma caixa de madeira. Era grande. E a imagem... Bem, a imagem era um capítulo à parte. Segundo consta: era necessária uma mecha de Bombril na antena para que as imagens ficassem mais nítidas. Nos dias de chuva e de trovoadas a mecha era removida da antena para evitar que atraísse algum raio. Nos dias bons, sem intempéries, o aparelho era capaz de captar alguns sinais. Entre chuviscos, riscos e ruídos tínhamos a ligeira e agradável impressão de que a Tevê Tupi, cujo sinal era retransmitido no Estado pela Tevê Piratini, mostrava naquele instante Os Trapalhões. A cozinha era conjugada com a sala. Todos sentavam no chão. 
Certo dia a tevê estava reinando. Parecia que tinha o diabo no corpo. Quando foi ligada simplesmente não mostrava nada. Nadinha. A tela estava preta. Retinta. Nem Didi nem Mussum nem Zacarias.  Nem voz tinha. Tia Maria ligou e desligou o aparelho uma dezena de vezes. Depois desistiu e deixou ligada. Achava que precisava esquentar as válvulas. Misteriosamente, depois de um tempo ela voltou a dar sinal de vida. Só que a imagem corria para cima e para baixo num ritmo alucinante. Não havia som. Somente um ruído. Era como se um dezena de cigarras se juntassem para um concerto. Não queríamos concerto, mas sim mais um programa inédito.
Tia Maria achou que soubesse como resolver o problema. E, como se espantasse as cigarras de dentro da tevê, deu uma pancada moderada em cima da caixa de madeira. “Buuuuummmmmm”. Foi o que se ouviu. Foi um estouro daqueles. Os mais medrosos correram para fora da casa. Da parte traseira da tevê levantou uma fumaça. Forte cheiro de pólvora encheu a cozinha. No centro da tela, apesar de desligada da tomada, permaneceu por longos minutos um inerte ponto negro.
Hoje se sabe que a tevê não tem o poder de levar o vivente para o inferno.  Alguns a usam na sincera tentativa de levá-lo para o céu, desde que sejam feitas determinadas contribuições. “Pode ser pelo débito em conta ou no cartão de crédito” diz o comovido pastor sempre empenhado em encontrar um cantinho no paraíso para seu rebanho.  

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